3 de jun de 2012

ALGUNS VERBOS DA VIDA

Eu costumo dizer que temos a obrigação de refletir bem antes de utilizarmos algumas palavras e, principalmente, alguns verbos. Ser não é o mesmo que estar. Gostar não é o mesmo que amar. Omitir não é o mesmo que mentir. E, por não darmos a devida atenção, nos confundimos muito ao utilizá-los no nosso dia a dia. Antes de utilizarmos qualquer palavra, temos a obrigação de refletir sobre o significado dela na nossa vida e na vida do outro. Temos, inclusive, que refletir sobre a ordem destes verbos na nossa vida, porque é essa ordem que inúmeras vezes pode demonstrar o que e quem realmente somos...

Para mim (mais uma vez me permito apontar meu ponto de vista) a vida, basicamente, segue através de 5 verbos principais: sentir, falar, agir, estar e ser. Necessariamente nessa ordem e sem pular etapas. Parece loucura e sim, eu parei para analisar logicamente se na prática isso acontece. E acontece, pelo menos comigo! Para mim, a vida e as situações só têm sentido quando segue essa ordem...Compreendendo estes verbos de acordo com o dicionário, o sentir é perceber por meio de qualquer órgão dos sentidos (eu incluo os sextos sentidos); o falar é expressar-se por palavras; o agir é praticar ou efetuar algo na condição de agente, apresentando determinado comportamento; estar é ser em um dado momento e ser é, dentre diversas outras explicações, o que existe e a natureza íntima de uma pessoa.

Assim, o SENTIR implica perceber-se e perceber o mundo. Implica ser sensível aos agentes externos do mundo que refletirão nos agente internos de cada ser. Implica aprimorar o tato, o olfato, o paladar, a audição e a visão, buscando explorar também a intuição e todos os outros sextos (e sétimos e oitavos e nonos...) sentidos. Sentir, na prática, é quando ficamos alegre com uma flor e este fato atinge não somente a nossa visão e o nosso olfato, mas o nosso coração. Na prática, sentir é quando nos decepcionamos tão profundamente que uma dor emocional se torna orgânica. E cada um sente de formas diferentes, com intensidades diferentes e diante de estímulos diferentes. É de fora para dentro...

E de fora para dentro, passa a ser de dentro para fora. Tudo tem sentido se o sentir for expressado, num primeiro momento, pela FALA, através de palavras bem colocadas e pensadas para que não nos machuquemos e nem machuquemos o nosso próximo e para que não nos coloquemos em situações embaraçosas nas quais corremos o risco de causar prejuízos. Dizer à pessoa que cuidou daquela flor muito bem, é um meio de expressarmos a nossa alegria e contentamento em ver algo tão belo. Assim como expressar por palavras a outro ser o quanto determinada atitude nos deixou tristes. Outros verbos vem implícitos no falar... e esse falar pode acalantar ou derrubar, pode elogiar ou envaidecer, pode explicar ou complicar, sendo que tudo vai depender do uso que se faz dele e da intenção.

E daí passamos ao AGIR. Só sentir e não expressar, talvez seja pouco. Só expressar e não agir, talvez perca todo o caminhar e a graça da vida. É o agir que consolida o que sentimos e o que expressamos em palavras. Nos sentimos alegres com aquela flor, expressamos por palavras tal sentimento e agora nos propomos a todos os dias regá-la e buscar um resultado tão belo. O agir demonstra o quanto sentimos e coloca a nossa fala em ação; ele é dinâmico, ágil e prova/comprova - ou não - os verbos anteriores. Particularmente, eu considero este um dos verbos mais difíceis de aplicar. Tão simples, tão fácil e tão complexo ao mesmo tempo. Já imaginou um mundo em que as pessoas conseguissem transformar em ações todos os sentimentos e as palavras que elas têm diariamente? E do agir, passamos a estar algo.

O ESTAR é algo passageiro, momentâneo. Como vimos acima, o estar é ser algo por um determinado momento e diante de uma determinada situação. Podemos não ser bons cuidadores de flores, mas naquele momento estamos sendo bons cuidadores de flores. Nenhum ser é efetivamente se não passar pelo estar. São sucessivos estar que nos tornam seres. Eu estou triste hoje porque passei por uma situação difíceil, mas amanhã, com essa situação resolvida e superada, eu volto a ser feliz. E são sucessivas repreensões do estar que aprendemos a ser. É a prática do estar algo que nos modificamos para sermos algo. E lógico, o estar envolve o momento atual... Estou corpo, estou médico, estou magra, estou rica... Mas nada disso efetivamente me pertence, pois eu sou espírito.

E chego ao SER. Uma das conquistas mais difíceis e complexas de todos nós que nos encontramos nesse planeta, vivendo este momento. Considero doloroso chegar ao ser, porque na maioria das vezes optamos pelo caminho da dor para aprender a ser alguém (especialmente se optarmos a ser alguém de valores éticos, morais e cristãos). Porque é isso que realmente somos. Podemos passar uma vida inteira sentindo, falando, agindo e estando, mas só compreenderemos o real sentido das coisas quando somos. Quando somos realmente bons - independentemente da opinião alheia -, quando somos realmente aquilo que pregamos. Retomando o exemplo, podemos sentir a alegria de ver uma flor, podemos expressar essa alegria, podemos agir na sua vida, podemos estar sendo naquele momento um bom cuidador dela, mas será que conseguiremos ser por toda a vida assim? Se sim, nos tornarmos o ser, se não, ainda permaneceremos no estágio do estar. E só a consciência de cada um determinará se tal fato é bom ou ruim. Assim, ser é uma conquista única, que não nos é dado, não é ensinado, não é explicado e não acontece por milagre Divino. Ser exige dedicação, renuncia, atenção, disposição. Ser remete a nossa essência, nossos reais valores. E se há algo do qual não podemos fugir é do nosso ser... ele dorme e acorda com a gente todos os dias, ele se mostra quando menos esperamos, ele pode enganar a todos menos a nós mesmos, ele é transparente mesmo que nós tentarmos fugir... porque ele é sútil, ele não necessita de palcos e aplausos, ele se mostra nas pequeninas coisas e nos pequenos momentos.

A vida não se resume a isso e cada um de nós poderá ter uma visão completamente diferente de tais verbos e colocações, mas a minha vida segue nessa ordem: sentir, falar, agir, estar e ser. Se isso é certo ou errado não sei, mas no atual momento é isso que tem sentido para mim e é isso que significa VIVER. Acredito que levarei inúmeras encarnações para conquistar o ser de algumas coisas (e quanta dor ainda terei que suportar por conta disso), mas sei que algumas eu já alcancei após um longo período de duras batalhas interiores, de sofrimento, de quedas, de estar no fundo do poço. Hoje eu aceito o que eu sou, o bom e o ruim que há em mim, e sigo em paz tentando modificar o que eu ainda não consegui ser. E todos somos assim! Só há duas coisas nesta vida que tenho certeza absoluta: que enquanto vivos vamos morrer e que todos vamos ter que evoluir e chegar ao ser. E nessa evolução nos depararemos com verbos melhores e mais fáceis de lidar (abraçar, beijar, elogiar, acarinhar...) e com tantos outros menos felizes (machucar, odiar, decepcionar, mentir, enganar, trair, falsificar...), mas todos seguiremos para o verbo fundamental, essencial e mais perfeito: AMAR! Mas esse fica para um próximo texto :)

 

VIVIANE VASQUES
03/06/2012